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Petiscos, das 13 pessoas do Petcom

Arquivo paragênero

Anedotas do feminismo

Uma passagem interessante encontrada em uma nota de texto do livro Problemas de Gênero, de Judith Butler.

“A afirmação mais polêmica de Irigaray talvez tenha sido a de que a estrutura da vulva, com ‘dois lábios a se tocarem’, constitui o prazer não unitário e auto-erótico da mulher antes da ’separação’ dessa duplicidade pelo ato destituidor de prazer da penetração do pênis. Juntamente com Monique Plaza e Christine Delphy, Wittig argumentou que a valorização dessa especificidade anatômica por Irigaray é em si mesma uma duplicação acrítica do discurso reprodutor, que marca e entalha o corpo feminino em ‘partes’ artificiais, como ‘vagina’, ‘clitóris’ e ‘vulva’. Numa conferência no Vassar College, perguntaram a Wittig se ela tinha vagina, e ela respondeu que não”.

Marcelo Lima

Infinita Tristeza

Marcos (ou Maria, ou Marília Soraya), chega a sua casa (ou apartamento, ou mansão) – alugada (ou comprado, ou alheia). O espelho espera-o impiedosamente, as maldições, as incoerências ou os raros elogios. Nos últimos meses, dias ou anos, nada foi muito memorável – adeus às boas memórias que a vida costumava oferecer.
Então, num súbito raiar do dia, as lembranças já não proviam bons frutos. Como premeditavam os tempos, chega um momento em que o chão ou o céu se abre e a queda ou tempestade se torna uma constante climática.
Maturidade adulta?
Marcos (ou Maria, ou Marília Soraya) insultava seu corpo no vidro. Refletia aquilo que odiava – tortura. Mudar o preconceito em Amor ou qualquer essência palatável parecia outra tortura – que não dava prazer. Ele (ou ela, ou ela/ele) odiava o machismo (ou feminismo, ou os dois ao mesmo tempo).
A chuva caía pelo teto impenetrável – sem escapatória para o incômodo.
A água molha o espelho – ele se transforma num rio. O rio seca – agora, uma poça. Ou um poço? A água é barrenta e espirala por um buraco invisível – o buraco do fundo do poço.
A água do poço, tão funda, nunca esperaria ninguém. Porém, Marcos (ou Maria, ou Marília Soraya) descobre algo profundo sobre si mesmo: está viciado em seu próprio reflexo na água barrenta.
Depois dessa visão, nada mais é límpido em sua vida.
“Quando uma intolerância autodirigida é alimentada, uma outra, mais geral, é disseminada nos autos da vida”, eco do fundo do poço.

por Marcelo Oliveira