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Petiscos, das 13 pessoas do PetcomArquivo para Resenhas e críticas
Conversas sobre política com Rubem Alves
No meio do ano passado, ganhei Conversas sobre Política, de Rubem Alves. Uma primeira olhada me fez acreditar que aquela era uma leitura própria para férias, quando se quer mais sentir do que pensar. Como iria demorar a ler, a dita que me deu o livro tomo-o emprestado. Possivelmente ela já me deu o livro com o propósito de pegá-lo em seguida. O fato é que o livro não esteve comigo por seis meses, até que em janeiro deste ano resolvi cobrá-lo rispidamente, porque as indiretas já não eram entendidas.
A culpa pela possível falta de educação foi logo apagada pelo prazer da leitura. A primeira vista parece história infantil, mas logo percebe-se que a linguagem simples e as metáforas explicitas querem dizer algo mais. Por isso, podemos considerá-lo uma coletânea de fábulas para todas as idades.
Indico, em especial, as seguintes crônicas:
Entre fezes e flores
De há muito se sabe que “o poder corrompe , e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Isso se manifesta de forma mais virulenta nas ditaduras, que sempre se instalam como programas de limpeza. Mas, como a história nos ensina, o seu resultado é terrível: sua -x-x-x-x-, além de ser igualmente fedorenta , é letal.
O povo que eu amo
Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo… Não sei se foi bom negócio, o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável é de uma imensa mediocridade.
Entre o ruim e o horrendo (texto completo aqui)
Não gosto dessa conclusão. Mas sou obrigado a considerá-la. Sei que ela faz estremecer muitas pessoas. Mas tais pessoas deveriam considerar o que acontece com a produção e o comércio livre de bebidas e fumo. Não tenho dados estatísticos. Mas tenho a impressão de que, em termos de crimes, violência, desastres automobilísticos, doenças, são maiores que os danos das drogas.
[…]
As drogas, liberadas, são um mal pessoal, médico, psicológico. Não liberadas, são um mal pessoal, médico, psicológico, acrescido de crime e da corrupção da vida pública.
+ info:
Algumas partes das crônicas em questão que foram publicados anteriormente em jornais:
http://www.rubemalves.com.br/ganheicoragem.htm
http://www.rubemalves.com.br/quartodebadulaquesVII.htm
Livro barato na Estante Virtual.
Turma da Mônica Jovem 8 conclui o arco Brilho de um Pulsar
Desde a crítica sobre a primeira parte da saga Brilho de um Pulsar venho admirado com a qualidade das histórias. De enredos fracos e reiterativos sobre o crescimento dos personagens, as HQs da Turma da Mônica Jovem passaram a retratar personagens que realmente se parecem adolescentes e diferentes de suas versões infantis. Dos antigos personagens os que mais tiveram atenção foram Franja e Mônica, sobre os quais falarei.
Franja e a violência
Franja esteve dividido entre sua devoção por uma figura do Astronauta e a aceitação dele da maneira como se apresentava no dia-a-dia: um homem austero, violento e distante. Esse dilema gerou diversos bons diálogos, sobre violência e usos da ciência e nesse número o conflito termina de maneira que não esperava. O Franja dá uma lição de inteligência para o Astronauta, ao analisar conceitos de gravitação, e percebe que a violência é importante para se manter a paz e para se defender. HQs que tocam nesse tipo de discussão criando uma dicotomia inteligência (paz) X violência (guerra) esquecem que na verdade esses conceitos andam de mãos dadas. Isso foi bem demonstrado em TMJ 8.
A violência, por sinal, foi elemento constante nessa saga. Pelo menos por três vezes Mônica foi eletrocutada, para se ter um exemplo. Esse enfoque nas agressões físicas foi privilegiado por desenhos muito bons. Ao contrário de TMJ 2, 3 e 4, quando aconteceram aventuras nada violentas, essas últimas edições souberam referenciar melhor as cenas de ação dos animes e mangás. Além dos inimigos estarem mais detalhados e imponentes (é só lembrar que a turma já enfrentou porquinhos fofos em TMJ 2), há mais linhas de movimento nas cenas, melhor uso do preto para dar profundidade ao quadro, maior expressividade facial dos personagens (basta olhar Mimi e Mônica, nas páginas 35 e 52, lembrando o lunático Fei de Xenogears), presença de onomatopéias ocupando dinamicamente os quadros, densidade dos cenários e até mesmo uso de requadros partindo de pontos grotescos desses ambientes (ver página 11). Enfim, as doses de violência e de ação estão muito boas.

Exemplo de onomatopéia ocupando espaço dos quadros
Mônica e a maturidade
Já a Mônica se transformou em outra Mônica. Talvez a única semelhança dela com a personagem infantil seja sua persistência em resolver seus objetivos, porque somos apresentados a uma garota que largou muitos de seus hábitos infantis e amadureceu rapidamente para questões adultas. Apesar de algumas inseguranças, Mônica revela ser ciente de sua sensualidade – e sabe como usá-la muito bem (ver página 120) – tem determinações bem construídas em sua personalidade, sabe ponderar diante de escolhas difíceis e aconselhar os amigos. Dessa maneira, conquistou o amor e admiração de Cebola, que ao invés de planejar com Cascão alguma estripulia contra a amiga, fica impotente ao vê-la tão corajosa diante das situações que enfrenta. Creio que TMJ 8 coroa a transição de amadurecimento que começou em TMJ 1, de maneira que agora a Mônica é praticamente uma adulta (compare a Mônica da capa dessa edição, acima, com a da segunda edição… Parece que mais alguns anos se passaram entre uma turma e outra).
E a maturidade se encontra em outros personagens, principalmente nos antagonistas. Ao contrário do Poeira Negra – ops, Capitão Feio – os vilões não eram absolutamente maus, pelo contrário, tinham razões bem concretas para suas lutas. Esses motivos foram explorados pelas perspectivas da Turma e dos próprios vilões, o que possibilita que se compreenda tanto as motivações de Mimi quanto de Mônica durante o confronto das duas. Creio que uma pesquisa de popularidade dos personagens mostraria isso muito bem. Até mesmo o aterrador Lorde Kamen possui um momento para lutar e cessa de usar a violência logo que cumpre seu objetivo. Creio que esse arco é uma prova de que as histórias poderiam ter sido maduros desde o começo – uma das maiores críticas que fiz – e continuar agradando os fãs. Os jovens não são tolos e bons moços, muito pelo contrário.

Lorde Kamen, em um dos desenhos mais belos da HQ
Uma boa aposta
Marcelo Cassaro foi uma ótima escolha da Maurício de Sousa Editora. A ele parece ter sido dado muita liberdade para escrever a HQ, pois nota-se a evolução dos personagens. Um outro motivo foi o gênero da história, a ficção científica, no qual Cassaro é mestre, sabendo dar toques certeiros de desenvolvimento de personalidade e da necessidade ação na HQ.
A aposta em Cassaro e na maturidade dos personagens foi bem acertada. Não quero assim dizer que as características adultas dos personagens sejam superiores sobre as infantis, mas são elementos essenciais para marcar algum tipo de diferença entre a turminha original e essa turma jovem. A violência mais realista também, uma vez que traz agora a responsabilidade por cada ato de agressão que os jovens cometam.
TMJ 8 fecha um ciclo onde os personagens da turminha encarnam praticamente todas as idéias reveladas por Maurício em algumas entrevistas. E que o retorno às histórias do dia-a-dia mantenham o nível!

Choques e mais choques marcaram a passagem da turminha para um mundo mais adulto e violento
P.S.: veio um card como brinde da edição, mas muito provavelmente não jogarei o card game da TMJ. Se alguém o fizer, comenta sobre como ele é. Me pareceu bem pobre em termos de regras.
Turma da Mônica Jovem 6 dá uma guinada rumo ao espaço e à boa qualidade das histórias

Não perco Turma da Mônica Jovem por nada. Algumas pessoas me perguntam “Por que comprar se você não gosta? Pra que dar dinheiro a eles?”. Posso não gostar das histórias e fazer críticas a elas, mas continuarei a comprar porque meu prazer em ler a Turma da Mônica é acompanhar de perto as comunidades de leitores da revista e, me posicionando como leitor de quadrinhos, avaliar a obra, para, discursivamente, dar alguma contribuição para ela.
Confesso que a edição anterior era do tipo que poderia me fazer desistir de continuar colecionando, mas uma novidade me fez voltar atrás: a contratação de Marcelo Cassaro como roteirista. Não é a primeira vez que Cassaro trabalha com Mauricio de Sousa, mas conheço seu trabalho da revista Dragão Brasil, voltada para os RPGs. Cassaro sempre foi uma mente criativa lá dentro, criando o cenário de Tormenta (junto com Rogério Saladino e J.M. Trevisan), o rpg 3D&T e a série de quadrinhos Holy Avenger. Cassaro sempre se demonstrou eficiente em desenvolver cenários, personagens e tramas – habilidades necessárias a um bom mestre de RPG. E isso fica bem claro em Turma da Mônica Jovem#6 – a melhor edição até o momento.
Cassaro muda o foco das aventuras do dia-a-dia, que não deram muito certo, para um terreno que lhe é bastante íntimo, o da ficção científica. Ele faz isso sem esquecer das relações dos personagens, aliás, faz de forma mais interessante e ampla do que vinha acontecendo nas últimas revistas. Claro que o público focado pela revista, 10-14 anos, se agradou pela abordagem bem humorada das personagens e a revista poderia prosseguir assim, porém Cassaro resolveu dar um tom mais sério em algumas passagens, como na briga entre Cebola e Mônica, quando ele a chama de egoísta e ela chora escondida de todos. O roteirista conseguiu realizar uma cena sem excessos, bastante humanizadora e tangível – ele adensou os personagens. Parece o estágio inicial do tipo de enredo que eu gostaria de ver em TMJ, rumando para conversas mais abertas sobre outros temas.
A narrativa de TMJ#6 não parece rápida e meio desorientada como nas edições anteriores, e consegue prender facilmente. A cada quatro nos é apresentado, de forma bastante criativa, alguma novidade exótica sobre a estação interplanetária ou algum elo com o passado da Turma da Mônica original. Mesmo não havendo muito andamento na trama, essa é uma edição sólida em suas perspectivas de tratamento dos personagens e cenários.
Dentre os elementos tecidos por Cassaro, está a inserção de uma figura extraterrestre bastante interessante e a reaparição de mechs (robôs gigantes), que reaproximam o quadrinho dos temas orientais e da forma mangá – por sinal, o mech lembra o Black Kamen Rider e algo do Jaspion. Esses elementos parecem saídos de uma história de mesa de RPG, notória pela presença de monstros, acontecimentos estranhos e muitos eventos rolando nas entrelinhas.
Uma novidade, entre os personagens é a presença de Franja entre os protagonistas. Sua presença em uma aventura espacial é justificada, mas ele está roubando a cena com os bons diálogos com o Astronauta. Eles servem para introduzir elementos de alta tecnologia a trama, sem esquecer do velho papo sobre valores humanos e uso das máquinas. O Astronauta é um personagem interessante, pois se tornou um homem ranzinza e solitário, ao contrário do personagem alegre da Turma original. Assim, vai se quebrando o bom mocismo politicamente correto de TMJ. Para caprichar mais, Cassaro não pode esquecer de dois personagens que estão sendo bem pouco desenvolvidos e são essenciais para a trama: Cascão e Magali.
Cassaro criou uma boa estrutura para explorar nos próximos números, mesmo se utilizando de elementos bem convencionais. Mas não se pode esquecer que Cassaro é um mestre, e sua narrativa sempre vai ser uma aventura bem descrita.
Espero as próximas edições, ansiosamente, como todos das comunidades Turma da Mônica Jovem.
Turma da Mônica Jovem 5 decepciona ao abordar o cotidiano adolescente

Reações positivas ou negativas ante o recente lançamento da Panini Comics, Turma da Mônica Jovem, uma característica era unânime: os Estúdios Maurício de Sousa estavam mais que antenados ao público jovem pré-adolescente. Muitas sacadas interessantes permearam a HQ, do uso de celulares e ringtones à incorporação de gírias e cultura de gueto pela classe média. As quatro primeiras edições foram sucesso de vendas, conseguiram segmentar um novo público e abrir espaço para incursões mais ousadas quanto à juventude, conforme prometido por Mauricio de Sousa.
A quinta edição, lançada esse mês, traz a seguinte chamada na capa: “As aventuras do dia-a-dia”. O mote das aventuras, de agora por diante, se focará nos relacionamentos pessoais dos personagens que habitam a Vila do Limoeiro, mostrando problemas e alegrias típicos que os jovens vivem. Novamente, como falei em outro blog, Mauricio promete e descumpre.
Não sou tão crítico quanto os meus colegas universitários da área de Sociologia quanto a questões de posição social e atos de fala, mas TMJ#5 é história em quadrinhos completamente elitista e distante da realidade da grande maioria dos jovens, principalmente das meninas, mesmo as ricas. Vamos por partes.
Elitismo: Em TMJ#5 é claramente mostrado a importância do dinheiro na vida adolescente. É através da moeda que os garotos podem levar as garotas para ir ao cinema, e elas podem comprar vestidos e jóias. São usos que muitos jovens fazem do seu dinheiro, mas cada um deles possui um nível de consumo diferente e o realiza de diferentes maneiras. É exatamente isso que TMJ#5 se exime de mostrar. Duas cenas são cruciais para se notar isso: quando Mônica e as amigas vão ao shopping e quando Cebola (não é mais Cebolinha, não esqueçam) pede a chave do carro ao pai.
Mônica está com dor de cotovelo porque Cebola foi estudar Inglês com uma garota. Para lhe ajudar a ficar “pra cima”, sua mãe a leva para fazer compras com as amigas. A lógica do consumo, ao chegarem ao Shopping, é gastar, gastar e gastar. Não é mostrado nem o que elas compram, embora se sugere que tenha sido roupas. A relação do jovem com o que compra é simbólica e concreta para demonstrar características intersubjetivas. O jovem que compra por comprar e pensa despreocupadamente “é hoje que o cartão de crédito do papito vai ferver” é um sério candidato a se tornar – se ainda não o é – um consumidor compulsivo.
Cebola pede o carro ao pai, para rodar no “sabadão”. No entanto, o pai nega por ele não possuir idade para dirigir e ainda o pede para lavar o carro. Lavagem feita, o pai de Cebola o entrega uma nota de 20 reais. Cascão e Titi, ao verem a recompensa, resolvem ir atrás dos pais para negociar o mesmo trato. Mesmo não mostrando eles discutindo com os pais, a HQ dá a entender que os pais são complacentes desse tipo de prática. Não há nenhum pai que não possua “vintão” para dar aos filhos por dez minutos de esforço.
Lembro que desde os primeiros números é mostrado o apelo consumista dos personagens, como quando Mônica resolve trocar de Celular porque o seu está com um pequeno defeito – a recepção de som está ruim. Onde estão os jovens que não podem realizar esse tipo de sonho? Aparentemente, a realidade de TMJ é a de jovens mimados que nunca recebem um “não” e possuem rios de dinheiro e nenhuma preocupação proveniente deste tipo de problema.
Sexismo: A HQ faz uma divisão clara entre meninos e meninas. Elas só aparecem entre elas e eles, entre eles. Cada um tem um grupo de atividades bem definido: as meninas vão ao Shopping, ao salão de beleza, compram jóias e falam de meninos. Os meninos vão pra um campo de beisebol secreto, suar e correr, e só falam de jogos e diversão. Os dois grupos só se relacionam para namorar.

A representação de ambos os sexos presume um tipo bem definido de jovem heterossexual e de classe média alta. Ignora-se o fato das mulheres terem conseguido mostrar, após movimentos feministas, que não são apenas consumidoras passivas, e que não podem ser agrupadas sob o nome “mulher” como se fosse uma identidade precisa sobre a condição de vida de cada individuo feminino.
Não há espaço para que os jovens possam demonstrar desejos sexuais pelo sexo oposto, uma vez que todos os personagens estão compactuados com o modelo heternormativo de relacionamento (ficar, namorar, casar, filhos). A mãe de Mônica diz: “Garotas amam garotos” e todas elas suspiram em acordo. O segundo capítulo da HQ se chama “Os garotos são todos iguais!” e não, não é por ironia. A HQ também é a favor da chamada “ditadura da magreza” ao mostrar jovens felizes com seus corpos: todos são magros e esbeltos e se elogiam por isso.
Acho incrível como a HQ não consegue dialogar com facetas de muitos jovens, como a participação em movimentos sociais, a preocupação com a natureza, o hedonismo sexual. Nesse sentido, a série Malhação da Globo consegue se sair um pouco melhor, mesmo continuando ruim. Desde a primeira edição da revista eu desconfiava que a HQ fosse situar-se exatamente dentro de uma limitada esfera do que se considera a identidade jovem. O público de comunidades do Orkut tachou partes da revista de machista e isso é um bom exemplo do quanto a revista não acertou quanto a estas representações.
Não sou contra uma revista que se proponha uma representação elitizada de um personagem, ou história, mas o que critico aqui é o descompasso entre o que o autor pretende e o que produz. Cadê as histórias sobre temas espinhosos da juventude, que Mauricio prometeu? O que se viu até agora é uma juventude tola, consumista, fútil e politicamente correta – acima de tudo.
Mauricio disse que pode colocar Chico Bento nas histórias se o público pedir por ele. Fico curioso imaginando como ele será colocado nas histórias. Será um filho de fazendeiro riquíssimo que faz musculação e pega todas as meninas do colégio?
A vida em azul e cor-de-rosa
Elas foram duas mulheres doentes. Uma com problemas decorridos de um acidente de trânsito, outra por culpa de excessos de bebida e morfina.
Ambas sofreram desesperadamente em nome de amores. Uma delas teve uma origem mais difícil, pobre nas ruas de Paris. A outra tinha uma juventude impetuosa até ficar impossibilitada de caminhar por alguns anos, período em que descobriu a sua arte.
A humilde parisiense descobriu muitas coisas quando moça, pois morava com prostitutas em uma casa de prostituição e delas aprendeu canções que abrilhantava com sua voz jovem e magnífica. A segunda mulher, uma mexicana, criou no pequeno universo de seu quarto um estilo próprio de pintura: enquanto não podia andar, pintava dia e noite quadros com idéias que surpreendiam pela originalidade.
Difícil dizer qual das duas teve vida mais fascinante ou qual das duas obras é mais interessante, no entanto podem-se comparar os dois filmes realizados sobre as duas, de produção recente: um é Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme, 2007, Olivier Dahan) e outro se chama Frida (Frida, 2002, Julie Taymor). Ambos os filmes narram, da infância à velhice, as vidas de duas artistas de personalidade forte e que deixaram um legado artístico incrível.
O primeiro tem como maior atrativo a atuação de Marion Cotillard, que ganhou o Oscar de melhor atriz pela perfeita representação que faz da cantora Edith Piaf, compositora e cantora do sucesso La Vie en Rose. Com ajuda da maquiagem ela encarna bem mesmo os momentos caquéticos da cantora, quando ela está nas portas da morte. A trilha sonora, além das músicas de Edith, é composta de canções da época (anos 40 e 50) que contribuem na caracterização do filme, e os vários cenários de Paris traduzem um clima opressivo de falta de recursos e carestia. Aliás, mesmo nos momentos mais felizes da vida de Piaf, há uma constante representação de uma aura decadente, como se o mundo dela fosse um cabaré triste cheio de atrações. A cena que mais se destaca em termo de tristeza é quando a cantora recebe a notícia de morte do seu grande amor, Marcel. Sua casa se torna um funeral labiríntico de partir o coração.
Trailer de Piaf
O segundo é uma película colorida e de takes criativos, protagonizada por Salma Hayek que atua maravilhosamente, tendo ao seu redor um elenco tão competente quanto ela. A criatividade do filme se encontra, principalmente, nas cenas que relacionam a produção de um quadro de Frida e o momento crucial que a leva a compor aquela obra. Em uma das sacadas mais geniais, ela está pintando sua obra, enquanto que por uma porta que dá pra um cômodo da casa é possível ver o resultado de suas pinceladas se formando, como se a porta fosse a moldura para o quadro. A história de Frida é rica em acontecimentos e dominada por uma estética de emoções vibrantes que se refletem na iluminação dos cenários e figurinos berrantes – um dos cenários é a Casa Azul, lar em que a pintora viveu e que agora é um museu de sua obra. Existe uma semelhança entre a estética de Almodóvar e a assumida em Frida.
Trailer de Frida
Os dois filmes são excelentes, no entanto Frida é ainda o mais interessante. Além de possuir uma narrativa sedutora e cenas que juntas revelam muitos detalhes da vida da pintora – por exemplo, que ela já teve um caso com Trotsky – é um filme com mais elementos somados e bem acabados num todo: os cenários diversificados, a trilha sonora bem escolhida, atuações magníficas e uso da câmera em diferentes angulações e movimentos. Piaf sustenta-se muito mais pela presença de Marion Cotillard do que pela completude da obra.
Após assistir os filmes, o melhor a fazer é entupir o MP3 da voz fúnebre de Piaf e marejar os olhos com os devaneios dos quadros de Frida. É difícil acreditar que a doença pudesse atingir alguma dessas duas mulheres.
Links Interessantes:
A Música de Edith Piaf:
http://edith-piaf.narod.ru/pesni.html
Pinturas de Frida:
http://www.artchive.com/artchive/K/kahlo.html#images
