(continuação de “depois ponho um título”)

Aquele Itaigara-via-Brotas não foi o único a desligar o motor, muitos o imitaram, a maioria. Os mais esperançosos mantinham-no funcionando. Não sabiam ao certo o que a chuva causou que causou tudo aquilo e quanto tempo correria até que a situação retornasse à normalidade. Eu tampouco. Se caíra uma árvore, ou um poste, se sucedera algum acidente por conta da pista molhada, ou algum deslizamento de terra, se surgira um lago no caminho, só iria saber alguns quarteirões mais adiante. Foi a última opção. No trecho da Avenida ACM que passa pelo Itaigara não um, mas vários novos lagos tinham se formado. E profundos: os motoristas que se meteram a atravessá-los ficaram ilhados; náufragos na sua porção de aço cercada de lama por todos os lados. A água, que já estava na altura das janelas, tinha obviamente entrado pelo escapamento. Aí, já era. Havia um bom número de veículos nessa situação; as seguradoras já deviam estar contabilizando o prejuízo (alguns conseguiram se salvar, subindo no canteiro central).
Impressionante como a cidade ficou silenciosa, só se ouvia a chuva (parece que os carros não poluem a atmosfera com CO2 apenas). Apesar de toda a confusão, achei ótimo que estivesse tudo parado: assim, os estressadinhos que tumultuam o trânsito de Salvador tiveram a oportunidade de exercitar a paciência por algumas horas. Enquanto a água não baixasse iam ficar todos ali, paradinhos em fila. Grupos de policiais se espalharam pelo trecho engarrafado, para evitar que a malandragem se aproveitasse da situação.
Na frente do Parque Municipal Joventino Silva, ondas (!). Coisa de louco. E necas de calçada. Os pedestres que não queriam enfiar o pé na água, com medo de doenças, treparam na grade que cerca o parque e arriscaram uma inusitada travessia. “Eu fiz isso no Exército!”, alguém comentou. Por aí já dá pra ter uma idéia.
Mas, o quadro mais impressionante se deu nas imediações dos shoppings Tropical, Max e Pituba Parque Center. Subi numa passarela pra obter uma visão geral da cena. O que tinha debaixo de mim era um rio; água até onde a vista alcançava. Enquanto pessoas tiravam fotos com as câmeras dos celulares, eu lamentava não ter comigo nada que me permitisse registrar a cena (em particular, o trabalho de um homem que tirava água da carro com uma vasilha tupperware).
Engraçado como as pessoas, mesmo cientes da gravidade da situação, estavam excitadas – para não dizer animadas – com aquilo tudo; parecia até que estavam a testemunhar algum prodígio. Quando a chuva enfraqueceu, as ruas foram tomadas por um bulício empolgado, cada um fazendo a sua reportagem.
Eu já estava doido para chegar em casa e continuei seguindo o meu caminho. Passei por uma mulher que chorava, gritava, um escândalo. Não sei o que a consternava, talvez tenha perdido um vôo, ou um ônibus na rodoviária (vi que segurava uma mala de viagem preta). Não quis ficar para tentar descobrir, embora um número de curiosos (Sempre rola os curiosos. Todo acidente estão lá: as vítimas, a polícia, os bombeiros e os curiosos.) já estivesse se juntando, preferi respeitar seu momento. Sério, ela estava arrasada.
Mas, nem só de perdas foi o dia. Sem ter para onde ir ou o que fazer enquanto esperavam as ruas secar, as pessoas lotaram os carrinhos de lanche que estavam em segurança nas regiões mais altas da avenida. Certamente, os vendedores não imaginaram que iam lucrar tanto com a chuvarada. Pois é, enquanto uns choram, outros vendem lenços…
E o prefeito João Henrique? O que estaria fazendo àquelas horas? Cuidando da verticalização da cidade, Sr. Prefeito? Pois, o problema é bem mais embaixo, na rede de drenagem…
O trânsito só voltou a fluir lá pela Manoel Dias e pela orla. Não tenho idéia de quanto tempo mais tudo ficou parado do CEASA até o Itaigara. Cheguei em casa tiritando e com fome. E ainda fui recompensado com um banho gelado (Brrrr! A resistência tá queimada!). De tarde, tive que enfrentar outro engarrafamento: o da fila do banco. Haja (santa) paciência!