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Eu não votei em Leo Kret! (por Cadu Oliveira, do blog Gelebete)
Leo Kret do Brasil teria conquistado 12862 votos se, em vez de votar em Lindinete Pereira, eu tivesse sido co-responsável pela sua eleição. Essa culpa eu não levei ao travesseiro. A dançarina do Saiddy Bamba entra pra história como o primeiro transgênero a se tornar vereador em Salvador. O quarto candidato mais votado, é bom frisar. Ponto pra ela, pros transgêneros e não-transgêneros que a elegeram na esperança de serem representados, e viva a democracia. Mas antes que eu jogue uma pá de cal na euforia dos leokretinos e seja etiquetado de homofóbico (ah, esse adjetivo!), quero explicar por que acho a eleição de Leo Kret um sintoma preocupante e um risco provável.
Primeiro que Leo Kret está mais para Sara Verônica (eterna Boquinha da Garrafa) que para Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia, também candidatos a vereador em Salvador, sem sucesso (nem tudo está perdido). Todo e qualquer voto é um tiro no escuro, mas votar num candidato como se se escolhesse um big brother é sintomático da ambigüidade da nossa democracia. Discordem o quanto quiserem, mas Leo Kret deve muito mais aos votos de protesto (aliás, aos votos de esculhambação) que ao envolvimento político do seu eleitorado. E nisso não há diferença nenhuma entre Leo Kret e a infeliz maioria dos vereadores (re)eleitos em Salvador, salvo a sua excentricidade.
Excentricidade que reside não no fato de Leo Kret passar milhas longe tanto do padrão macho-paternalista quanto do estilo mulher-guerreira, mas pela razão de que se pode, sim, entrar na vida política num abrir e fechar de urnas apenas porque se é famoso, polêmico e objeto de fetichismo. Daí que não faria diferença alguma se, em vez de Leo, Bagagerie Spielberg e Latino fossem eleitos apenas porque são, respectivamente, transformista e sex symbol. Como legisladores, o mais provável é que fossem ótimos (?) artistas.
Militantes gays vão alegar que o simples fato de termos uma vereadora que foge ao padrão heteronormativo já é uma vitória pro movimento GLBT e uma lição pra sociedade. Isso vai depender do bom desempenho de Leo Kret fora dos palcos. Caso contrário, teremos apenas trocado eles por elas e incorrido novamente no equívoco de achar que identidade (de gênero, etnia…) e competência política são uma coisa só. E daí o mesmo movimento vai acusá-la de traição às bandeiras e de ter desperdiçado uma oportunidade de colocar representantes da população GLBT no poder. Olha a responsa, Leo!
Quando assisti à propaganda de Leo Kret na tevê, depois de fingir não ter ouvido a candidata gemer depois de um discurso todo rimado, me perguntei: Por que não? Mas por que sim? Por que ainda precisamos eleger um candidato não-heterossexual pra que a comunidade GLBT possa obter dos poderes públicos o que lhe é de direito? Se Leo Kret se elegesse, teríamos uma bancada pró-GLBT na Câmara Municipal formada por um político apenas? As bandeiras de candidatos travestis, homossexuais, bissexuais e transgêneros têm que ter cores necessariamente diferentes das demais? Gay tem que votar em gay? Todo indivíduo pertencente a uma minoria social tem espírito público? Um turbilhão de questionamentos, interrompido apenas pela lembrança do gemido inacreditável. O grunhido de Leo Kret é o equivalente transgênero do “au” de Frank Aguiar, deputado federal petebista por São Paulo, na sua propaganda em 2006?
Desejo aos eleitores de Leo Kret e a todos os soteropolitanos diretamente atingidos, positiva ou negativamente, por essa eleição que tanto a vereadora transgênero quanto os vereadores mais ou menos ortodoxos não nos envergonhem pelos próximos quatro anos. Ou então é rezar pra que a tragédia toda se resuma a sapateado em hora imprópria e a abelhinha de estimação zunindo dentro do ouvido…

A sua capacidade de expressão é exemplar! Linguagem fácil de entender, sem grandes colóquios, e principalmente, envolvente!
Parabéns pelo texto!