Novamente, na livraria cheirando a incenso, encontro a alma de algum homem para me iluminar. Egberto Penido, no livro sombras e distâncias, me disse:
A mão, a divina escura mãe
Toda dor é a Mãe.
Toda a alegria e também toda a tristeza é a Mãe.
Tudo o que fala é a Mãe. O Pai
É o silêncio.
Ela absorve nossas culpas, nossa arrogância, nossa indiferença,
Nossa falsidade e nossas verdades, nossa ganância,
Nossa desmesura.
Oceano de amor e clemência, a Mãe
Escura de nossas trevas, libera
O espaço de nosso coração
Para que o Filho possa renascer
Em cada momento de nossas vidas.
Fotografia
Depois da primeira morte há a segunda:
não consigo mais me lembrar
da expressão de seu olhar.
Viagem
Viaja acordado em sua noite
Tentando recolher os destroços, os dispersos fragmentos
De seus sonhos mortos.
Tudo parece flutuar à deriva.
Seria a pessoa que não queria ter sido?
A angustiante sensação
De não haver conseguido atravessar o abismo
Que o separava dele mesmo,
De ter perdido o caminho, passado ao largo, de haver
Traído o seu Anjo.
Nos labirintos do coração a terrível visão
De sua mão vazia.
Uma eternidade o separa da manhã
Ficou aguardando
A luz distante de um possível milagre.
In Memorian
A idade
A solidão
Tua dor transparecia
No fim e um dia há um quarto de século
Eu me lembro
E choro.
Retorno
Quando o tempo desapareceu da mente
e o universo cessou de existir
centelhas azuis o atravessaram
et fou d’amour
retornou para Si-mesmo.
Por: Marcelo Lima