Petcom

Petiscos, das 13 pessoas do Petcom

Poparteliteráriafeministafantástica

Lempicka

Quadro de Tamara de Lempicka

Encontrei-me com Pubis Angelical em janeiro de 2008, 29 anos depois de sua primeira publicação, na Argentina. A união entre leitor e obra se deu numa livraria de livros esotéricos e espíritas de Feira de Santana, mediante R$3,90. A capa e a edição eram simples – o livro faz parte da coleção consagrados livros lançados em meados dos anos 80 pela Rocco – mas algo no quadro de Tamara de Lempicka me atraiu. Olhei a contracapa onde a sinopse me atentou para a temática interessante: “O tema básico deste romance revela uma atualidade a que dificilmente ninguém estará em condições de escapar: até que ponto um indivíduo é senhor de seu comportamento e não títere de sua formação familiar e cultural?”. Fui convencido aí, e por isso levei o livro de Manuel Puig para casa.

A sinopse prometia ainda uma história recheada de elementos femininos – todas as personagens principais são mulheres que são cuidadas para serem objetos sexuais – mas eu não podia imaginar até onde se chegariam esses tais elementos. Surpreendeu-me quando comecei a ler o livro e percebi que se trata de um realismo fantástico feminista, misturado com ficção científica, emendado a tramas políticas que envolvem a política argentina de fins dos anos 70, marcado por uma estética gay.

A trama se desenvolve em três diferentes locais, situados em diferentes tempos – e, ao que parece, em diferentes realidades. Acompanhamos Anita, mulher argentina está internada em um hospital mexicano se lutando contra um câncer e que se lamenta por esperar que um homem ideal venha lhe fazer dos homens que a feriram e lhe dar toda a felicidae que deseja encontrar; conhecemos a Senhora, uma ex-atriz de sucesso que mora com um homem que a aprisiona numa ilha, para dominá-la, mas não consegue contê-la quando ela descobre que possui um estranho dom que a joga em um conflito internacional; e por fim, a trágica W218 se apresenta como uma ciborgue que mora numa Terra pós derretimento das calotas polares, trabalhando para o governo como agente sexual, transando com velhos e doentes em uma sociedade machista.

Dentro dessa salada de cenários e personagens, uma salada de estilos de se escrever: o autor se utiliza de recursos como cartas, diários, diálogos extensos, descrições densas e às vezes dinâmicas, narrativa paralela, dentre outras experimentações e referências populares que levam Manuel Puig a ser adjetivado por alguns críticos como escritor de literatura pop art – movimento que não existe na literatura. Apesar da criatividade, a história de Anita é um tanto óbvia, ela tem reflexões sobre sua sexualidade que são muito esclarecidas e ainda assim o autor insiste que ela espera um “homem superior” e briga com sua amiga feminista, que lhe apresenta idéias com as quais concorda. Mesmo sendo a mais forçada das histórias, ainda assim possui uma lógica em sua construção.

No entanto, melhores momentos estão nas tristes histórias da Senhora e W218. Elas duas aparecem de forma equivalente, inclusive: sabem se defender melhor que Anita, mas também sofrem mais ataques por conta de possuirem o inexplicável dom de ler mentes, o que deixa governos às suas procuras, para dissecá-las, estudá-las e passar seus poderes para os homens – e apenas aos homens!

Em 1985 o livro foi adaptado ao cinema, por Raúl de la Torre. Também é homenageado na música homônima de Charly Garcia, grande músico argentino.

É importante que seja lido por qualquer pessoa que queira pensar sobre seu estar no mundo e as obrigações sociais que muitas vezes sufocam. E também pelos que admiram uma mistura de percepções guiadas por apenas um homem, que é o mesmo mestre que escreveu o famoso :”O beijo da Mulher-Aranha”.

2 Comentários »

  Art Blog » Pop arte literária feminista e fantasiosa wrote @

[...] Petcom added an interesting post on Pop arte literária feminista e fantasiosaHere’s a small excerpt [...]

  Saulo wrote @

Se ainda sim não se extrair nada de um livro de Puig, ainda dá para usá-lo como uma completa Oficina de Criação Literária. O romance Boquitas Pintadas, por exemplo. Cada capítulo tem uma técnica de narração diferente, a ponto de você querer anotar como é que se faz.


Seu comentário

HTML-Tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>