Vou-me embora pra Holanda, minha Pasárgada. Não é pelos biscoitinhos, brownies ou pirulitos de maconha. Nada disso, já passei dessa fase. Os proto-sábios dirão que amadureci, mas na verdade, simplesmente, me encantei pela arte da indolência. Minhas atividades preferidas são comer e dormir. De vez em quando, na verdade muito raramente, dou um trepadinha, sempre por baixo, claro, pra não cansar. Tornei-me um preguiçoso inveterado, e fumar maconha dá muito trabalho. A confecção dos baseadinhos é penosa, exige demasiada paciência, concentração e disciplina intelectual. Não cumpro nenhum dos três pré-requisitos. Seria mais fácil devorar uns bolinhos granulados recheados com a erva enquanto afundo no sofá ancião que a minha mãe há anos tenta vender, mas esses quitutes alucinógenos não fariam bem ao eu estômago esburacado. Enfim, não é a maconha que me levará à Holanda. O motivo é menos óbvio.
Os bons amantes do sedentarismo parasitário sabem muito bem que, cedo ou tarde, une-se à preguiça modorrenta uma incontrolável e teimosa libertinagem. Uma vontade ranhosa, persistente, determinista. Abdiquei de qualquer interação social que não me possibilite terminar a noite bêbado, pelado, todo lambuzado de chocolate e com um ranso delicioso de perfume barato. A alegria das minhas ressacas é remoer essas lembranças embaçadas das minhas noitadas indolentes e pervertidas. A preguiça e a ninfomania se entranharam em meu corpo com uma força invencível. Por isso repito, não é a pureza da maconha holandesa que me seduz. Mas sim as novidades jurídicas no campo das atividades meramente sexuais: “a polícia holandesa determinou que a partir do segundo semestre deste ano não será mais crime ter relações sexuais nos parques públicos de todo o país”, globo.com.
Com a imensurável velocidade do clique de um mouse, a redenção da minha sorumbática existência materializou-se frente aos meus olhos. Além da liberalização de sexo nos parques e pracinhas, que não são poucas, os holandeses proibiram a circulação de cachorros sem coleiras em locais públicos. Não me interessam as justificativas para a adoção dessas leis. Simplesmente amo sexo e odeio cachorros, qualquer cachorro, seja ele quadrúpede ou não. Pronto. Pra mim já basta. Tenho motivos suficientes e não estou disposto a explicá-los. Não vale a pena alongar meu desabafo. E para enlevar ainda mais este momento de sublimação carnal, adapto à libertinagem do meu íntimo os versos de Bandeira: “Vou-me embora pra Holanda, lá tenho a mulher que quero, no banco de praça que escolherei”.
Por Bruno Santana